domingo , julho 22 2018
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Mouhamed Harfouch sobre carreira: “Gosto de fazer o que me dê medo, dúvida”

 

Nas ruas, Mouhamed Harfouch volta e meia é parado por adultos, que, em tese, não seriam o público de Malhação. Mas Bóris, o coordenador pedagógico do colégio da novela, acabou fazendo muita gente se identificar o papel. “Professores, pedagogos, pessoas que trabalham com educação vêm falar comigo contando que estão se sentindo representados”, conta o ator orgulhoso. Até a acusação em que o personagem se meteu, acusado erroneamente de assediar Lica (Manoela Aliperti), repercutiu de forma positiva.

“Isso é algo que acontece. Recebo muitas mensagens pelas redes de professores que passaram por situações semelhante e não tiveram um ‘final feliz’ como o Bóris, cuja situação foi esclarecida”, explica ele, contando que nunca se envolveu com alguma professora. “Sempre fui muito amigo, mas nunca teve isso de olhar e falar ‘nossa’. Acho que quando isso acontece, cabe ao professor colocar limites e encaminhar para a parte pedagógica, sem expor ninguém. É preciso ter cuidado nessa relação”, avalia ele – na trama, Lica confundiu o carinho de Bóris com amor, passou a investir em cima do professor, e ele foi investigado.

Na época de escola, o problema de Mouhamed era outro: bullying. Filho de um sírio, ele chegou até a dizer à mãe que queria mudar de nome para evitar as piadinhas. “Eu cresci com um nome diferente e, nos anos 1980, era ainda mais incomum. Tinha vergonha das brincadeiras e precisei ser um cara que tratava disso com leveza, levando no espírito esportivo. Acabei ficando popular por causa disso”, conta o ator. “Mas, tirando essa época de escola, nunca sofri preconceito por causa do meu nome. Em viagens internacionais, nunca fui parado, nunca tive visto negado. Isso não quer dizer que eu vá tranquilo e não tenha medo, por exemplo, de ir ao Estados Unidos. Nunca aconteceu nada das vezes que fui, mas dá medo”, explica Mouhamed, que defende a tolerância.

“Essa onda de intolerância que estamos vivendo, que vai da política à religião e está crescendo, me assusta também. A pior coisa é a agressão”, diz o ator, lembrando o caso de Titi, a filhinha de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank, vítima de racismo há algumas semanas. “Aquilo ali foi um ataque, um crime tão gratuito!  É tão triste ver o quão pobre e maldoso pode ser um ser humano, o quão ignorante e sem afeto pode ser uma pessoa”, desabafa Mouhamed.  “A gente precisa de iluminação e não cabe no século que a gente está vivendo lidar com esse ser humano (atrasado). Uma pessoa que vem propagar intolerância, maldade, é um caso de polícia”, afirma ele.

Um mundo melhor é um desejo do ator também para os filhos, Ana Flora, de 5 anos, e Bento, de 9 meses, da união com a mulher, a advogada Clarissa Eyer.  E, o trabalho na  trama da Globo, também fez com que ele pensasse no futuro. “Fazendo Malhação, eu, veterano no meio de jovens talentosos, fico pensando que daqui a 10 anos minha filha estará enfrentando a vida estudantil que a gente mostra na novela”, analisa ele, que garante que a paternidade não tem fórmula. “Eu acredito que todo pai tenta acertar ao máximo. Tentamos acertar da melhor maneira. Educação começa em casa, continua no colégio e se faz ao longo da vida”, ensina Mouhamed, que gostaria que os filhos tivessem um professor como Bóris. “É um cara que ama a educação, tem ética, é íntegro e foca em cada aluno em sua individualidade para se desenvolver. A visão que ele tem da educação é muito parecida com a minha”, diz o ator.

Em casa, Mouhamed divide as tarefas com Clarissa. Com o segundo filho, veio mais cansaço, mas também mais certeza do caminho. “Da segunda vez, a gente fica muito mais relaxado. Eu lembro que com a minha filha eu tinha pânico dela engasgar. Se dava um biscoito e ela  ficava entalada, eu ficava apavorado! Na primeira febre da Ana Flora, fiquei louco, fui parar no pronto-socorro. Com o segundo, você está mais maduro e preparado para a experiência de lidar com um bebê”, conta.

Mouhamed Harfouch (Foto: Rodrigo Lopes)

Como muitos pais, o ator se assusta ao ver que as crianças estão crescendo. “Passa tudo tão rápido! Hoje vejo minha filha com 5 anos, e ela não tem mais aquela carinha de bebê. A gente tem que participar da vida deles, não só para ficar atento a tudo, como o que veem no YouTube, por exemplo, mas para não perder nenhum momento dessa preciosa experiência que a paternidade trás”, diz ele. “Você se vê neles, me vejo na minha menina, estou me revisitando no meu menino”, pondera o ator, que tem certeza do que mais deseja para Ana Flora e Bento: “Que eles propaguem um mundo mais tolerante, harmônico, que não tenha preconceito, mais ético, menos corrupto, e onde a gente abrace a diversidade”.

Aos 40 anos, com novelas como Cordel Encantado (2012), Amor à Vida (2014) e Liberdade, Liberdade (2016) no currículo, Mouhamed diz que sentiu, sim, mas só um pouco, a idade. “Na minha primeira paternidade eu não ficava tão cansado”, diverte-se. “Mas estou me sentindo bem. O que não faço hoje não é pela idade, nem cansaço, é pela falta de tempo”, assume. ” Trabalho muito, e minha prioridade são meus filhos. No meu tempo livre, não penso o que vou fazer e sim o que vou fazer com eles”, conta o ator. Apesar da rotina puxada, ele ainda consegue jogar vôlei e se cuidar: faz academia, corre e procura ter uma alimentação saudável – tudo sem neuras. “O tempo vai ficando curto, a vida corrida, estou vendo cada vez mais cabelo branco, a barba branca, mas estou feliz. A maturidade te faz entender e não sofrer tanto”, garante.