quinta-feira , outubro 19 2017
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Zona rural de Feira de Santana faz procissão para agradecer pelas chuvas


Em 2017, Fabianos, Sinhás Vitórias, Cristinas, Isabels, Zé Antônios, Andrés, Felipas e Renatos seguem acreditando no que Graciliano Ramos escreveu, em 1938, quando publicou Vidas Secas. Deus não permitiria outra desgraça.

Por isso, era hora de agradecer. A trovoada não veio em 2017, mas veio a garoa; veio a chuva de inverno; veio o chuvisco capaz de deixar a grama verde. Onde era terra seca, em dezembro de 2016, havia capim verde em setembro de 2017. Quando o CORREIO esteve em Morrinhos, na zona rural de Feira de Santana, no Centro-Norte do estado, pela primeira vez, tudo era marrom. Até os mandacarus estavam acabando, depois de uma seca que durava cinco anos.

No último dia do mês de setembro, a reportagem voltou ao povoado com pouco mais de 200 habitantes. Encontrou gente que, como Fabiano e Sinhá Vitória, se acostumou com a estiagem. Gente que aprendeu a conviver com ela, mesmo quando a seca era tão devastadora quanto foi a última.

Mas é esse mesmo local que, hoje, está coberto por flores amarelas – as beldroegas. Ainda que a seca persista e castigue – e, em alguns locais, mais arrasadora do que antes -, o solo floresce. Dele, vem a energia, a alegria e, principalmente, a expectativa de uma nova vida.

 Diante de tanta tristeza recente, havia motivo para comemorar. Em março, acompanhamos os sertanejos que plantaram no dia de São José esperando colher a partir da época do São João, em junho. Agora, era o dia de levar o São José da Capela de Morrinhos de volta à Fazenda de Osmundo, de onde ele veio, em procissão, no dia 11 de março. Na mesma ocasião, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro fora levada da capela à fazenda.
André e Amanda

Agora, era hora de os dois voltarem para casa, novamente em cortejo.

No último dia do mês de setembro, a reportagem voltou ao povoado com pouco mais de 200 habitantes. Encontrou gente que, como Fabiano e Sinhá Vitória, se acostumou com a estiagem. Gente que aprendeu a conviver com ela, mesmo quando a seca era tão devastadora quanto foi a última.

Mas é esse mesmo local que, hoje, está coberto por flores amarelas – as beldroegas. Ainda que a seca persista e castigue – e, em alguns locais, mais arrasadora do que antes -, o solo floresce. Dele, vem a energia, a alegria e, principalmente, a expectativa de uma nova vida.

Diante de tanta tristeza recente, havia motivo para comemorar. Em março, acompanhamos os sertanejos que plantaram no dia de São José esperando colher a partir da época do São João, em junho. Agora, era o dia de levar o São José da Capela de Morrinhos de volta à Fazenda de Osmundo, de onde ele veio, em procissão, no dia 11 de março. Na mesma ocasião, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro fora levada da capela à fazenda.

Agora, era hora de os dois voltarem para casa, novamente em cortejo.

“Hoje está tudo verde. É uma seca verde”, diz o aposentado André Batista, 79 anos. É ele quem organiza a procissão e mobiliza os moradores. André não planta mais há 18 anos, desde que se aposentou. Com varizes e dores nas pernas, não consegue mais andar muito para ‘fazer a roça’. A esposa Amanda, 81, ainda chegou a plantar algum feijão, mas nas proximidades de casa. Semeou seis litros do grão e colheu o equivalente a ‘três quartas’ (uma quarta é uma área de aproximadamente 6 m²).

“Eu não faço mais roça, mas os filhos e os outros fazem. (A chuva que veio) Deu para tirar metade da despesa, então, tem que agradecer a Deus. São José está com seis meses e 19 dias lá, por isso, falei: ‘vamos levar São José e esperar em Deus as trovoadas de outubro e novembro”. Adoentado, seu André teve medo de acontecer algo inesperado com ele ou com a esposa; algo que resultasse em uma promessa quebrada com o santo padroeiro dos trabalhadores e das famílias. Por isso, antes que o destino intervisse, marcou a data da procissão.

Seu André lista gente que conseguiu colher até 20 sacos de 60 quilos de feijão. Um conhecido que mora em Irecê, também no Centro-Norte, chegou a mais de 40 sacos.

Para eles, ainda não é o ideal, mas já é uma ajuda grande.

Fonte: Correios 24 Horas