sexta-feira , novembro 22 2019
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‘Tenho vergonha de ir à praia’, diz Paolla Oliveira

Em uma hora e meia de conversa, Paolla Oliveira não toca no celular — nos últimos anos, não consigo lembrar de um entrevistado que não tenha dado uma espiadinha no telefone para checar mensagens ou curtidas durante o bate-papo.

Mas, diferentemente de Vivi Guedes, sua personagem que anda roubando a cena em “A dona do pedaço”, a atriz de 37 anos não considera o smartphone uma extensão de seu corpo. “Todos os dias, quando entro no carro para trabalhar, lembro que esqueci o celular plugado no carregador e tenho que voltar para buscá-lo.”

Quando está fora do ar, de fato, Paolla some da internet. “O mundo virtual é uma delícia, mas o mundo real ainda é o meu preferido”, diz. Mesmo não sendo uma frequentadora assídua das redes sociais, Paolla tem um poder inegável como influenciadora digital diante de seus 17,5 milhões de seguidores no Instagram.

Números que (ainda) deixam no chinelo os 368 mil fãs de @estiloviviguedes, perfil criado pela produção da novela, cheio de fotos sensuais, que jamais seriam postadas pela atriz, mas já quebraram algumas vezes a internet. Quem vê as poses e as cenas de Paolla não pode imaginar que ela não gosta sequer de usar biquíni em público. “Tenho vergonha de ir à praia”, diz. A seguir, um pouco mais da intimidade desse tsunami que ainda pensa ser marolinha.

Vida digital

“Vivi Guedes, minha personagem, parece que já nasceu com o telefone na mão, fazendo selfie. Eu, não. Mas existe uma geração de atrizes, bem próxima à minha, que é muito, mas muito mais conectada do que eu. Precisei até fazer aula de selfie para essa novela! Agora, fico impressionada com o poder da televisão aliado ao da internet. Juntar esses dois mundos está sendo novo, divertido, trabalhoso, mas acho que estamos conseguindo levar a dramaturgia para as redes sociais e vice-versa. É maravilhoso quando interagem com a Vivi. Enquanto isso, eu, Paolla, não vivo com o celular colado ao corpo, pelo contrário.”

17 milhões de seguidores

“Nem eu acredito que tenho tantos seguidores assim. Nos últimos tempos, vim aprendendo a lidar com as redes sociais e descobri um lugar que me agrada. Muitas vezes, ainda ouço que deveria postar mais isso, mais aquilo. Eu tinha a opção de ficar de fora ou de seguir um padrão. Mas resolvi fazer o que é bom para mim, que é conseguir compartilhar algumas ideias sem me ferir, sem passar do meu limite. Até tem publicidade, mas sou cuidadosa para fazer, procuro sempre seguir uma linguagem que tenha a ver com o meu feed. Ou seja: tem natureza, meus 10 gatos, meus cachorros… E claro que, às vezes, posto foto bonita, arrumada, num clima de look by Vivi.”

Força feminina

“Fui de uma policial militar para uma influenciadora digital. A Jeiza (da novela “A força do querer”, de 2017) e a Vivi são personagens opostas, mas as duas mostram o poder feminino. Vivi vende perfeição, beleza, imagem. Quando falamos sobre se expor na internet, estamos falando de uma mulher com liberdade, uma mulher segura. Fiz até stiletto, aquela dança  de salto, para entrar na energia da personagem.”

Essa timidez

“Nos últimos anos, fiz cenas quentes, fortes, pesadas, até de estupro, mas nada foi igual ao que estou vivendo com a Vivi. É bem difícil para mim fazer essa personagem porque as pessoas tendem a nos aproximar. Mas ela é solta, extrovertida, está num lugar que não é o meu. Eu sou tímida. Quantas vezes você me viu na praia nos últimos dois anos? Pode dar um Google que não vai me achar. Não vou mesmo, tenho vergonha. Sou muito crítica, prefiro ficar escondida, ir a lugares onde não tem muita gente, ficar no meio do mato. Não é que tenha algo de errado com o meu corpo. É que a minha alma é mais calma. Não sou tão disponível quanto os meus personagens, gosto de ser mais discreta… Pois é, sou uma atriz pop, mas quero ser discreta. Apareço na TV de biquíni, mas não gosto de ir à praia. Faço análise há oito anos, mas não consigo me definir. É dicotômica que fala, né?”

Criação machista

“Sou a única filha mulher, tenho três irmãos. Meu pai, hoje policial militar aposentado, veio do Rio Grande do Norte, com valores antigos. Minha mãe, depois de criar os filhos, está conseguindo fazer faculdade de Medicina, agora, aos 56 anos. Ela trabalhou na roça e até os 12 não tinha TV em casa. Ou seja: tive uma criação bastante machista. Fui criada para não errar, não ter opinião e ser discreta. Mas, ao mesmo tempo, meu pai sempre nos incentivou a sermos bons em nossas profissões. Da educação que tive, usei o que era bom. O meu trabalho é muito importante, me deu independência financeira, me deu voz. Uma voz potente para uma menina que tinha vergonha de falar ‘presente’ na chamada da escola.”

Bandeiras da vida

“As bandeiras do feminismo estão na minha vida. Minha história é de briga. Em casa, batia muita boca. Não entendia porque tinha que chegar mais cedo do que os meus irmãos. Ouvia do meu pai que eles dirigiam melhor do que eu por serem homens. Sempre fui questionadora. Por esse histórico, fazer uma cena de biquíni é bem mais profundo do que podem imaginar. É ter vencido uma família, um padrão, um estereótipo. Espero que essa palavra, feminismo, seja vista do tamanho que ela tem, não simplificada e rasa.”