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Educação remota: falar é fácil, executar é mais quinhentos

O ensino remoto tem se mostrado uma grande utopia e é praticamente inexistente

05/11/2020 11h46 Atualizada há 3 meses
Por: Redação
Educação remota: falar é fácil, executar é mais quinhentos

Muitas secretarias estaduais e municipais apenas “ordenaram” a implantação do ensino remoto, mas sem a devida estrutura para que o mesmo acontecesse de forma efetiva, o resultado é um ensino precário, aliás precário é pouco, na verdade o ensino remoto tem se mostrado uma grande utopia e é praticamente inexistente, no que diz respeito às escolas públicas em todo o Brasil. Avaliando pelas estatísticas o Estado do Paraná tem se mostrado vitorioso neste processo, mas existem dúvidas, se os números refletem a realidade, falou em estatística a primeira coisa que me vem à mente é a citação atribuída ao primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli: “Existem três tipos de mentiras, as mentiras, as mentiras deslavadas e a estatística”, como diz o Caio Coppolla: “Uma vez torturados os números confessam qualquer coisa”. A verdade é que na maioria do território nacional o ensino remoto se revelou um grande fracasso no que diz respeito ao nível de aprendizado, neste sentido o ano letivo de 2020 está comprometido, para não dizer perdido. É óbvio que não haverá reprovação, várias secretarias estaduais já estão de certa forma sinalizando para isso, conforme parecer no CNE – Conselho Nacional de Educação que “recomendou” a aprovação automática, Paulo Freire onde quer que esteja deve estar muito feliz com essas notícias, já que o mesmo defendia a “progressão continuada” que na verdade é outro nome para “aprovação automática”.

         Vamos apresentar a seguir alguns fatores que até certa medida contribuíram para o insucesso da educação remota neste período de pandemia, alguns fatores que certa forma levaram a educação a situação em que está, o negócio, já estava ruim, mas agora conseguimos o impossível, pioramos e infelizmente estou com receio de ainda não ser o fundo do poço e ainda ter que descer mais um pouco.

 Entraves da educação remota em tempos de pandemia: recursos didáticos.

         Os recursos didáticos disponíveis é um dos fatores que determinam a qualidade da aula e por consequência do aprendizado do aluno. Em tempos de pandemia e aulas remotas em sua maioria têm sido um tanto quanto “meia boca”, já que tanto alunos como professores não possuem os recursos adequados para uma aula bem produzida e com retorno desejado.

          Perguntei a diversos professores dos estados da Bahia e Sergipe dos sistemas municipais, estaduais e privados se algum deles teria recebido do seu empregador algum recurso como tablet, notebook ou smartphone e algum aporte financeiro para contratar internet e a resposta foi negativa ninguém recebeu esse apoio. Sendo assim cada professor esta “se virando” com os recursos próprios que muitas vezes são insuficientes para a produção e execução das aulas, por sua vez os alunos também alguns não possuem internet banda larga, ou computadores a maioria acompanha as aulas por smartphone às vezes próprios ou de familiares, sobretudo aqueles que moram em zona rural nos rincões do Brasil. Sendo assim, podemos dizer que falta de recursos tecnológicos tem sido um entrave para a educação. Que se tenha notícia nenhum Estado deu esse aporte para os professores ou alunos, o Estado de Sergipe anunciou a distribuição de um chip com uma franquia de internet adquirido em parceria com a operadora Oi para os alunos que não possuem internet em casa, mas até então a medida não se efetivou, porém outros recursos foram providenciados como aulas na TV aberta com uma parceria na TV Aperipê afiliada da TV Cultura e um suporte no site da Secretaria de Educação com atividades e orientações para os professores, alunos e pais ou responsáveis. 

 Entraves da educação remota em tempos de pandemia: falta de apoio da família

          A Constituição Federal diz que a educação é um dever do Estado e família, essa mesma afirmação é confirmada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a LDB ainda diz que os pais juntamente o Estado deve zelar pela frequência escolar do aluno.

          C.F Art. 205. A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

         Lei nº 9.394/1996 LDB Art. 2º. A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho

          Infelizmente esse apoio da família na educação dos filhos está cada vez mais escasso isso é perceptível nas reuniões de pais e mestres, nas quais o quantitativo de país presentes está longe da quantidade de alunos matriculados, sendo bastante otimista arrisco dizer que nas reuniões o comparecimento dos pais e/ou responsáveis não chega a 50% do total, o que demonstra um desinteresse dos pais na educação dos filhos sobrecarregando assim a escola. Sabemos que isso é um reflexo dos modelos de famílias produzidos na sociedade moderna, nas quais em sua maioria o pai e a mãe trabalham e por muitas vezes acabam transferindo a responsabilidade para um terceiro que pode ser avós, tios, parentes de uma forma geral e até babás. Que fique claro que não existe problema algum na mulher estar no mercado de trabalho, mas os pais precisam saber equilibrar o tempo entre trabalho e família, dividir as tarefas entre os cônjuges e tentar da melhor forma contribuir de forma significativa para a educação dos filhos. Temos ainda um quantitativo muito grande de alunos que são filhos de pais divorciados e que na maioria esmagadora das vezes a carga recai sobre a mãe, que se dividi entre as obrigações de mãe e de pai simultaneamente, é ao mesmo tempo a cuidadora e a provedora do lar, segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), 45% dos domicílios brasileiros comandados por mulheres (2018) e impossibilita a execução de uma educação com mais qualidade sendo prejudicada pela falta de tempo, devido ao acúmulo de funções assumida pelas mulheres na sociedade atual. Os professores sentem esse reflexo e ao ser perguntado sobre o apoio das famílias neste período a maioria avalia com ruim ou insuficiente.

          Em tempos de ensino remoto os alunos ficaram mais dependentes dos pais devido às atividades e/ou aulas estarem acontecendo todas em casa. No caso da educação infantil e ensino fundamental I se não houver esse acompanhamento e apoio da família fica completamente inviável, eu diria até impossível a execução a educação remota de forma satisfatória.

         Temos ainda outro entrave é que muitos pais, sobretudo nas zonas rurais não possuem instrução escolar suficiente para ajudar os filhos nas atividades, ficando o aluno sem apoio para realização das tarefas, as bancas escolares que na maioria das vezes preenchia tal carência também estão em pausa prejudicando ainda mais o aprendizado do aluno neste período.

          Sendo assim podemos concluir que a falta de apoio dos pais se dá em várias frentes podendo ser por falta de organização familiar e interesse, por falta de tempo dos pais e/ou responsáveis, pela falta da habilidade necessária para efetivar essa ajuda ao aluno nos seus estudos e por problemas familiares diversos como divórcios, filhos órfãos e outros.

 Entraves da educação remota em tempos de pandemia: desmotivação dos alunos

         Em conversa rápida com professores da Bahia e Sergipe que atuam nas mais diversas esferas do sistema de ensino podendo ser rede estadual, municipal ou privado os mesmos apontaram como maior problema da educação remota a desmotivação e falta de interesse pelos alunos, essa desmotivação tem sua raiz nos motivos acima apresentados que são a falta de recursos didático-tecnológicos e falta de apoio família, mas também existem outras razões que podemos apontar que podem ser a raiz dessa falta de interesse. Para se ter uma ideia a maioria dos professores afirmam que o percentual de alunos que participam das aulas e/ou atividades dão retorno ou estão presentes estão casa dos 30%.

Essa falta de interesse se dá principalmente porque os alunos estão confinados em casa em um local que geralmente tem um gama de distrações, o entretenimento que deveria ser acessado como um momento de lazer passou a ser a principal atividade, podemos citar como maiores vilões as plataformas streaming, as redes sociais e plataformas de produção e transmissão de vídeos. Pesquisa feita pelo IBGE em 2019 divulgou que 76% da população brasileira usam algum tipo de serviço de streaming como, por exemplo, a Netflix e a Amazon Prime, esses serviços de streaming podem ser acessados em vários dispositivos como: TV’s, computadores, notebooks, smartphones e tabletes, neste seguimento o Brasil é o 6º maior consumidor do mundo. Para acessar os serviços de streaming e as redes sociais se faz necessário o avesso a internet, mas isso não é problema no Brasil. O comitê gestor de internet no Brasil em pesquisa de 2019 afirmou que o Brasil tem 134 milhões de usuários de internet, isso representa 76% da população brasileira, este percentual significa que três em cada quatro brasileiros possuem e usam internet.

          O acesso à internet que deveria ser em tese deveria ser uma vantagem para as aulas remotas, porém tem se revelado o contrário porque o uso indiscriminado e sem controle das redes sociais e serviços de streaming tem sido um grande inimigo para a educação remota porque está tirando o foco e consumindo todo o tempo dos alunos. Não são raros os casos dos alunos que apresentam a falta de internet como justificativa para a não participação nas aulas ou apresentação de atividades, porém o mesmo se se encontra ativo e on-line em diversas plataformas digitais como o Instagram, Facebook, Twiter, TikTok, You Tube e por aí vai, locais onde eles gastam a maior parte de seu tempo e porque não dizer desperdiça e destrói o seu tempo. Muitas vezes não assistem ao vídeo enviado pelo professor, mas não deixam de assistir o vídeo do seu youtuber preferido. (confesso que me deu vontade de citar os nomes de um monte de youtubers que produzem “porcarias”, mas vou me abster para evitar um processo).

          A televisão é outro vilão neste processo, em pesquisa de 2018 o IBGE revelou que apenas 2,8% dos brasileiros não possuíam televisão em casa e que 33,7% dos domicílios brasileiros possuem algum serviço de TV por assinatura, assim o tempo é consumido em séries, filmes e programas diversos. A TV em casa também deveria ser uma vantagem e é se usada corretamente, já que a mesma pode ser usada para acessar conteúdos através do You Tube, já que a maioria dos aparelhos são SmartTV que podem acessar a internet, vale lembrar também que vários Estados brasileiros compraram espaços nas TV’s abertas para transmissão de aulas e que frequentemente essas aulas podem ser acessadas posteriormente nas plataformas do You Tube dos canais contratados.

 Diante disso podemos afirmar que sem dúvida alguma que o maior problema hoje da educação remota está na falta de interesse e motivação do aluno, é claro que não podemos desprezar os outros problemas como falta de recursos e de internet, sobretudo nas regiões mais pobres e mais remotas do Brasil mais precisamente no Norte e Nordeste, falta de apoio dos pais ou responsáveis, no entanto, é possível perceber que esses problemas estão em menor proporção e não tem sido um fator determinante neste momento. Vale lembrar que os professores que hoje estão na ativa estudaram em períodos com recursos infinitamente menores do que aqueles que os alunos possuem atualmente, muitos tinham apenas o caderno e a caneta, mas não deixou de lutar e vencer, usava livro emprestado, fazia resumos, tirava xerox, frequentava bibliotecas e assim alcançaram seus objetivos, sendo assim fica claro que se o aluno se esforçar um pouco por mais que sejam as dificuldades ele vai obter os resultados esperados porque quem planta colhe.

          Só para frisar é bom deixar claro que as redes sociais, a TV, os serviços de streaming tudo isso é bom e tem o seu lugar, a crítica aqui se dá pelo uso excessivo como já dizia o ditado popular; “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. Precisamos entender que muitas coisas que são boas o seu mau uso pode ter um efeito devastador. De posse de uma porção urânio a cientista pode produzir energia elétrica ou uma bomba nuclear. Futuramente o “mi-m-mi” entrará em seu “level hard”, muitos vão achar seu bode expiatório para culpar podendo, masdiante disso fica claro que o sucesso de uma pessoa passa sobretudo pelo campo das escolhas, sendo assim o aluno precisa decidir os usar os seus recursos da maneira correta e se beneficiar deles e deixar essa mania de procurar culpados em vez de driblar as adversidades.

 Colaboração:Reinaldo Valverde Pereira, o professor Valverde detém os cursos de Licenciatura em História e Bacharel em Teologia, possui ainda formação profissionalizante em Comunicação Oral & Escrita e Jornalismo Digital e é autodidata em empreendedorismo. É estudante de pós-graduação em Educação Ambiental, Docência no Ensino Superioe e Metodologias em Educação à Distância. É Entusiasta do Conservadorismo e do Liberalismo Econômico. Dispõe de uma vasta experiência em docência com passagens pelo ensino fundamental, médio e educação de jovens e adultos. Atuou como professor da Rede Privada de Salvador e atualmente é professor da Rede Estadual de Sergipe, além de escrever periódicos, sendo colunista de vários portais de notícias de todo o Brasil escrevendo sobre diversos temas.

 

Instagram: @professor.valverde

Twitter: @profvalverde

 

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